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A Importância do Brincar na Aprendizagem.

Em 17 de dezembro de 2013 às 16:14 Por Lílian de Almeida P. B. Sá - Pedagoga e Psicopedagoga Formação em Pedagogia Waldorf, Arte-Educação e Socioterapia.


“Dize-me como brincas e te direi… como tu és”.

Há algum tempo atuando na clínica psicopedagógica, percebo a necessidade de refletir com os pais, educadores, e outros interessados a importância do brincar na construção do conhecimento. As brincadeiras fazem parte do patrimônio lúdico-cultural, traduzindo valores, costumes, formas de pensamentos e aprendizagens. O brincar fornece à criança a possibilidade de ser um sujeito ativo, construtor do seu próprio conhecimento, alcançando progressivos graus de autonomia frente às estimulações do seu ambiente. É dentro desse contexto, que o lúdico possibilita o falar, o ouvir, a livre escolha, a criatividade, a cura, a transformação…

Na Pedagogia Waldorf, criada pelo filósofo austríaco Rudolf Steiner (1861-1925), o brincar é o principal conteúdo na pré-escola. Desse modo, a criança desde pequena vivencia ricamente a sua imaginação e a fantasia, através das brincadeiras de roda, bonecas de pano, contos de fada, além de pintar, modelar, cantar; dentre outras atividades, que são importantes elementos para a formação das forças criadoras da personalidade. Para Heydebrand (1996), “deveríamos evitar nessa idade toda atividade intelectual; e não-artística, de caráter abstrato e alheia à vida real’’. Por meio do brincar, as crianças exploram o mundo com todos os seus sentidos e desenvolvem as primeiras noções de espaço, tempo, textura, temperatura, forma e consistência. Alguns estudos neurofisiológicos relatam que a formação do cérebro e a ampliação do número de sinapses (conexões nervosas) são estimuladas pelo processo natural de brincar.

Segundo Kishimoto (2000), pesquisadora da USP e autora de diversos livros sobre Jogos e Educação Infantil, “a criança procura o jogo como uma necessidade e não como uma distração… (…) É pelo jogo que a criança se revela. As suas inclinações boas ou más, a sua vocação, as suas habilidades, o seu caráter, tudo que ela traz latente no seu eu em formação, torna-se visível pelo jogo e pelos brinquedos que ela executa”.

Certo dia lendo a revista Veja, psicólogos e educadores discutiam sobre o tema, e achei bem oportuno, algumas questões abordadas por eles. Pesquisas americanas afirmam que as crianças educadas precocemente demonstram menos criatividade e menos entusiasmo pela aprendizagem, ocasionando muitas vezes, stress e depressão infantil. Elas alertam ainda, que as crianças precisam ter mais tempo livre para rir ou mesmo para o ócio, e que brincadeiras simples como caça ao tesouro, desenvolvem mais o raciocínio e podem aprimorar a alfabetização, a matemática e outros tipos de conhecimentos.

Por vivermos numa cultura predominantemente tecnológica, percebemos que a criança está perdendo a sua capacidade original de brincar, e em conseqüência disso, observo que muitas das dificuldades de aprendizagens estão associadas a estes fatores, pois segundo Oliveira (2007), “a atividade lúdica revela-se como instrumento facilitador da aprendizagem, possuindo valor educacional intrínseco, criando condições para que a criança explore seus movimentos, manipule materiais diversos, interaja com seus colegas e resolva situações-problema”.

No trabalho psicopedagógico, observo algumas crianças apáticas e desinteressadas que brincam pouco e são muito endurecidas tanto física quanto psiquicamente. Elas apresentam dificuldades em se expressar de forma criativa, e de se reconhecerem autoras de suas produções.  Outras crianças, incansavelmente querem brincar, mas não conseguem, por excesso de tarefas ou pela ausência de conhecimento dos pais sobre o assunto.

Para que o processo de aprendizagem seja real e objetivamente eficaz, é imprescindível ampliar nossos conhecimentos a esse respeito, e esclarecer aos pais, educadores, e pessoas afins, a importância do brincar na sua essência, como fator decisivo para o desenvolvimento humano, e não apenas como mera discussão intelectual, ou como “coisa do passado”.

Convido você leitor a repensar seus conceitos sobre o assunto: O que eu entendo sobre o brincar? Como foi a minha infância? Como é a de meus filhos? E a escola, tem permitido que os professores brinquem?  E os alunos?  O que esperar do futuro, se as crianças hoje entram para a escola precocemente?

É de fundamental importância, tomarmos consciência de que a atividade lúdica é uma necessidade da criança, que propicia o seu desenvolvimento físico-motor, emocional, cognitivo e afetivo. Brincando a criança ordena o mundo à sua volta, assimilando experiências e informações, incorporando atividades e valores. O brincar permite que o aprendiz tenha mais liberdade de pensar e de criar para desenvolver-se plenamente.

Em síntese, brincar é aprender, aprender é brincar (deveria ser, pelo menos)…

É conectar-se com o prazer de ser autor, é tornar-se mais humano…


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