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Avião sem Asa, Fogueira sem Brasa – A Relação Família e Escola.

Em 28 de outubro de 2013 às 18:55 Por Ana Márcia Pini - Diretora Pedagógica


Até naquela data eu conhecia bem a escola do ponto de vista do aluno. Mesmo com toda a formação e os estágios, a minha visão ainda não era a de uma profissional da educação. Era distrair um pouquinho e lá estava eu pensando a educação empiricamente.

Foram necessários alguns anos de prática, muito estudo e reflexão para que, aos poucos, eu fosse entendendo que atrás das escolhas e ações pedagógicas existe uma ciência, existe conhecimento construído por teóricos e práticos que dedicam suas vidas a decifrar o desenvolvimento humano e os processos de aprendizagem.

Por que digo isso para iniciar uma reflexão sobre a “relação família-escola”?

Porque sei que esse jeito de pensar sobre a escola não é privilégio só dos professores novatos. Todos nós, adultos formados, professores ou não, tivemos ao longo de nossas vidas, um contato muito íntimo com a escola. Passamos de oito a dezoito anos dentro dessa instituição. Essa vivência nos dá a falsa idéia de que estamos habilitados a criticar, sugerir, opinar e até definir procedimentos na escola de nossos filhos.

Por sua vez a escola, pelos motivos mais diversos, algumas vezes não somente legitima essa conduta da família, como promove uma inversão de papéis.

É exatamente aí que nasce uma das primeiras confusões nessa relação tão importante, tão imprescindível que é a parceria família-escola.

Definir papéis, diferenciar condutas, obrigações e objetivos a serem alcançados por cada uma das partes é organizador e necessário – inclusive para os alunos -, além de ser a única maneira de se manter uma aliança benéfica e produtiva.

Mas quais seriam essas diferenças? Como ser complementar sem ser invasivo? Como os pais podem ajudar no processo escolar?

A primeira idéia que devemos levar em conta é a de que a família localiza-se no espaço do privativo, enquanto que a instituição escolar pertence ao espaço coletivo, público. Em outras palavras, a intimidade e o particular se referem à família. À escola cabe a idéia de coletividade.

Partindo dessa premissa entendemos que a aprendizagem da vida em sociedade vai depender, em muito, do trabalho da escola. Para cumprir essa missão a escola, juntamente com a família, precisa entender que atitudes como: “abrir exceções”, ter como regra a “análise de casos individuais”, privilegiar o “atendimento individualizado” em detrimento do grupo, a coloca fora do seu lugar. Normalmente equívocos dessa natureza nascem do despreparo de alguns profissionais da educação que ficam confusos ou inseguros quando se sentem pressionados por famílias que julgam estar fazendo o melhor para seus filhos, sem saber que, na verdade, estão promovendo uma inadequação, um despreparo para a vida em grupo. Exemplos aqui são diversos: pais que querem que seus filhos sejam prontamente atendidos na escola como são atendidos em casa, justificativas para os atrasos no início da aula, não cumprimento das tarefas e prazos estipulados, pedidos de separação de colegas com problemas de relacionamento, pedidos de mais ou menos lições de casa.

A segunda idéia a se considerar diz respeito à invasão que muitas vezes a escola comete sobre as famílias. É comum professores e coordenadores apontarem qualquer déficit de aprendizagem como sinal de problema familiar. Nesse caso vasculha-se a vida íntima da criança, o que expõe a família e, na maioria das vezes, não muda em nada a situação escolar do aluno. Outras vezes a escola passa um roteiro de condutas a serem adotadas em casa e baterias de atividades escolares, como se a não aprendizagem daquele aluno fosse um problema a ser resolvido em casa. O que se tem como resultado dessa confusão de papéis, freqüentemente, é uma criança oprimida pela angústia de seus pais que não conseguem ajudá-la. A dificuldade aumenta.

Não é só a escola, porém, que invade a família. Há também um controle excessivo, por parte dos pais, sobre a vida de seus pequenos. Cabe lembrar que a palavra desenvolver é entendida, pela educação, como “sair do envolvimento”, o que sugere que a criança, aos poucos, deve ir se diferenciando dos pais, num processo que a psicologia chama de diferenciação para a individuação, ou seja, para se tornar indivíduo. Para isso, pouco a pouco, os pais da criança pequena, que antes conheciam cada “buraquinho” dela, aos poucos devem aprender a respeitar pequenas áreas secretas que vão surgindo. Uma delas é quando a criança julga que a escola é um espaço seu, diferenciando-o do espaço familiar. Quando isso acontece, pais mais controladores procuram a escola ansiosos e ávidos por reuniões, conversas na porta da sala, relatórios e listas do que seu filho está fazendo, como está reagindo e se relacionando, na expectativa de que o professor seja o mais detalhista possível. Erram pais e escola quando fazem essa parceria. Trocar informações pode ser muito precioso, mas somente quando essas forem favoráveis ao desenvolvimento.

Também é comum ver pais interferindo quando os filhos apresentam uma queixa da escola em casa. Logo intercedem pelo filho, antes de incentivá-lo a tentar resolver por si o incômodo. É bastante compreensível tal atitude, mas é mais estimulante para o desenvolvimento orientar para que a criança tente manifestar na escola o seu desconforto, antes de qualquer interferência.

Relatei até o momento o que família e escola devem evitar. Mas afinal, o que a família pode fazer para favorecer o processo escolar?

Muito mais do que se pensa, a participação nas tarefas domésticas, tais como arrumar a própria cama, lavar a louça, bater um bolo, ajudar nas compras de varejão, organizar armários, recolher brinquedos, significam uma boa contribuição para o processo escolar, além de desenvolver o espírito de coletividade e responsabilidade; pequenas atividades manuais como tricô, crochê, bordados e construção de brinquedos com sucata são calmantes, aumentam a concentração e atenção e melhoram a auto-estima; jogos de tabuleiro são desafiantes e promovem aproximação entre os familiares e, conseqüentemente, aprendizagens quanto a convivência, além da capacidade de antecipação; pequenas brincadeiras orais que podem ser feitas no percurso de casa até a escola, tais como “Descubra o bicho e Memorize!”, aguçam  o raciocínio.

Além disso, devemos cuidar para que as crianças tenham uma rotina tranqüila, horário para realizar suas tarefas, regras que regulem a convivência familiar e limites claros.

Uma família que valoriza as manifestações culturais, que prestigia cinema e teatro, que tem o hábito de leitura, uma família que comenta com a criança o que está acontecendo no mundo e passando na T.V., que seleciona os programas que podem ser vistos, está em sintonia, está alinhada com as aprendizagens escolares.

Acreditar, confiar na escola que escolheu é condição.


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