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Onde vai com tanta pressa?

Em 6 de novembro de 2013 às 16:04 Por Ana Márcia Pini - Diretora Pedagógica


Dias atrás, li um artigo sobre comportamento, num desses jornais de grande circulação, que adolescentes chegam a beijar até dezoito pessoas numa mesma noite. Nos trechos em que eram reproduzidas partes das entrevistas, o fato era narrado pela moçada com descontração e tinha como motivador pequenas apostas e uma certa competição. Afeto nenhum.

Busquei respostas na minha geração (nasci em 68), pensei em “gente consumindo gente”, pensei no imediatismo em que temos vivido e consegui justificativas mais plausíveis nos valores e modelos que, sem querer, temos oferecido. Essa moçada faz hoje o que aprendeu conosco, apresenta comportamento coerente com os valores por nós transmitidos. Não são transgressores, são apenas bons alunos, aprenderam bem a lição que nós ensinamos.

Como assim?

A pressa está entre os princípios mais recorrentes que regem a nossa ação, o consumismo não fica atrás, queremos muito, queremos tudo e cada vez mais, confundimos quantidade com qualidade, misturamos produtividade com desenvolvimento e perdemos o que é humano.

O ritmo de nossas vidas é o ritmo da urgência, do imediato, do mercado. Os ritmos biológico, cardíaco, o ritmo do crescimento sustentável, os ritmos da natureza, das estações do ano, o tempo da espera, o tempo do sono e do despertar, o tempo do desenvolvimento não nos interessam, não importam. O ritmo é ditado pelo tempo do consumo, quanto mais rápido, melhor, afinal, “tempo é dinheiro”.

Esse ritmo foi tomando conta de nossas vidas em todos os níveis, em todos os aspectos, sem que a gente percebesse, e, de repente, o nosso discurso já não é coerente com a nossa ação cotidiana, com o modelo. Falamos de afeto, inteligência emocional, humanização das relações, responsabilidade social, mas vivemos consumo, velocidade e intolerância.

Fazemos isso o tempo todo, e desde muito cedo com nossos filhos, a começar pelo resguardo, “Haja paciência!”.

Vamos burlando o ritmo natural e tentando, sempre que possível, antecipar tudo, afinal “para que deixar para amanhã o que e se pode fazer hoje?”.

Então queremos que os nossos pequenos sejam alfabetizados logo, que desenvolvam responsabilidade o mais cedo possível e nos preocupamos com isso, mas não nos perguntamos o que as crianças estão deixando de fazer para realizar precocemente essas aprendizagens. Vestibulinhos para crianças ingressarem na primeira e quinta séries não nos causam estranheza, não nos incomodamos com os estragos que isso pode gerar na auto-estima desses pequenos. É motivo de orgulho para os pais um filho iniciar com pouca idade a primeira série, seja do ensino fundamental, seja de uma faculdade.

Depois vêm as avaliações quinzenais e o excesso de conteúdos, que é visto por muitos como “ensino de qualidade”. Verificar as reais aprendizagens que essa pedagogia promove, não fazemos. Reflexões sobre a adequação desse ensino às características pessoais e de desenvolvimento também não acontecem. Escolhemos de novo com base na pressa e no consumo. Queremos muitas informações, o mais cedo possível.

Depois vem o ensino médio, então nos interessa uma escola que prepare para o vestibular, como se questões ligadas à formação plena desse adolescente já estivessem resolvidas. Antecipamos a maturidade dos nossos filhos e esperamos que logo estejam na faculdade, preferencialmente que isso venha a ocorrer aos dezessete anos, logo que concluírem o ensino médio.

Mas, que pressa é essa?

Respondo logo: é a pressa que tira de nossos filhos a possibilidade de se descobrirem pessoas, pessoas que sentem, que têm um ritmo próprio, que respiram, que têm afetos e desafetos. Pressa que não oportuniza o sonho, que inviabiliza o humano, que impõe o individualismo e que desrespeita o desenvolvimento.

É essa pressa também, a mãe de muitos males modernos: ansiedade, síndrome do pânico, depressão infantil, erotização da infância, obesidade, sem falar das inúmeras  crianças encaminhadas para atendimentos especiais por não darem conta dessa escola da urgência.

Há algum tempo, participando de uma palestra escolar, fiquei surpresa quando um professor de terceiro colegial respondeu a uma mãe preocupada com a possibilidade de seu filho não obter sucesso no vestibular naquele ano. O professor, sábio, orientou: “Não nos preocupa o vestibular, entendemos que seu filho ainda está em formação, tem apenas dezessete anos, muito provavelmente estará melhor preparado para fazer a escolha profissional um pouco mais tarde. Temos trabalhado para que nossos jovens sejam críticos, façam escolhas conscientes e sintam-se livres para isso. Ao terminarem os estudos em nossa escola deverão ter tempo para escolher de forma tranquila sua carreira. É preciso que tenham liberdade de escolha entre cursos técnicos ou superiores. É bom que ao fazerem suas opções, tenham um tempo para estagiarem na área escolhida, antes de iniciar o curso”.

A mãe agradeceu, eu mais ainda, afinal os meus filhos ainda são novos. Depois da queda do “dogma” do vestibular, terei tempo para romper com outros paradigmas e respeitar os ritmos e necessidades de cada um deles.

Afinal, aonde vamos com tanta pressa????????


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