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Escola, um Espaço Curativo.

Em 28 de outubro de 2013 às 18:53 Por Ana Márcia Pini - Diretora Pedagógica Ideias compiladas dos escritos de Thomas Marti e Josiane Barbosa.


A Saúde, em sentido mais amplo, tem a ver com resistência corporal, força anímica, e clareza espiritual. Promover essas capacidades deveria ser a maior preocupação da pedagogia: todas as atitudes pedagógicas devem impulsionar e dar suporte ao desenvolvimento salutar, corporal, anímico e espiritual da criança.

Em crianças e jovens não só há mudanças quantitativas, mas também qualitativas no que diz respeito à saúde: percebe-se em geral um retrocesso das doenças infantis (sarampo, caxumba, rubéola, catapora e etc.). Em lugar dessas doenças com os sintomas da febre, surgem muitos dos assim denominados “males não específicos” (Hurrelmann, 1997): nervosismo, agitação motora, distúrbios de atenção e concentração, distúrbios de sono e alimentação. Também as alergias que desde os anos 50 se manifestaram em dobro; hoje, seguramente, a cada três crianças uma é atingida por esses distúrbios, acrescidos de doenças psicossomáticas, como dor de cabeça e problemas digestivos.

No total surge uma imagem de saúde que deixa as crianças parecerem como pequenos adultos (segundo o autor acima). O mesmo acontece com o manuseio de medicamentos. O autor acima, Hurrelmann, estima que, aproximadamente, de todos os jovens de doze anos, no mínimo um terço, uma vez por semana, usa a farmácia familiar porque necessita de medicamentos como calmantes, ou excitantes ou contra dores. À situação de saúde das crianças e dos jovens somam-se problemas corporais ou de desenvolvimento psíquico.

Quadros típicos são: hipersinestesia, distúrbios de relacionamentos sociais, capacidade de rendimento reduzido, medo, depressão, agressão.  Mersmann, em 1998, através de um estudo de corte transversal descobriu que em crianças de 6 a 14 anos surgem mais escolioses (problema postural), problemas da motricidade grossa, fina e distúrbios visuais motores, distúrbios visuais e auditivos como também, problemas de adipose (crianças gordas).

Aproximadamente a cada oito crianças (12,7%) uma apresenta problemas de fala. Assim a cada cinco crianças (18,3%) uma apresenta um impulso excessivo de movimento, é irrequieta e agitada. Aproximadamente 47% das crianças de 11 a 14 anos em 1995 necessitavam de atendimento especial – em 1986 ainda eram 16%.

Todos esses sintomas apontam para uma relação corpórea deficitária, e podem ser interpretados como conseqüência da falta de movimento e de atividade dos sentidos na tenra infância. Os distúrbios aqui mencionados mostram a premência de uma pedagogia que seja provedora de saúde, que satisfaça as exigências dos nossos tempos.

Aliás, tempos em que, absurdamente, as nossas escolas mais se aproximam de nossas fábricas, nossos livros cada vez mais se transformam em simples peças mercadológicas. Todos iguais, mesma matéria, mesma forma de aprender, mesma forma de avaliar.

É urgente que se encontre respostas a questões sobre o porquê de as nossas crianças inicialmente terem os olhos encantados para o aprender e, após algum tempo de escolarização, perderem esse encantamento. Por que será que passam a afirmar que “aprender é chato”, “os professores são chatos”, “aprender só serve para tirar nota na prova e passar no vestibular”. O que será que acontece nos bancos escolares que muda radicalmente a relação com o aprender? Até que ponto os ditos “ distúrbios de saúde não específicos” são conseqüência de uma sociedade que desconhece e assim desrespeita as necessidades de seus filhos? Não seriam também conseqüência de uma pedagogia massacrante, coerente com esse “fundamentalismo” de mercado, que promove a “adultalização” da infância, antecipando o que deveria ficar para mais tarde?

Quando falamos do educar e do ensinar como um ato sanador, a questão não é: como eu curo crianças com distúrbios ou crianças doentes?, mas, sim como estruturo o meu trabalho para que as crianças, através do ensino, sejam fortalecidas em suas forças saudáveis, se desenvolvam e possam tornar-se seres humanos livres?

Na pedagogia compreende-se que buscar saúde é reconhecer cada criança individualmente, em sua individualidade cognitiva, corpórea, psíquica, para que possa se desenvolver. Promover a saúde não mais se esgota em medidas particulares oscilantes e no combate aos sintomas de patogênese, porém, torna-se o cerne da pedagogia e perpassa a vida diária, até a última fibra, o plano de ensino, a seleção da matéria, a estruturação da aula, os métodos, os meios de ensino, o horário, os boletins, a construção arquitetônica da escola, a estrutura social do colegiado, enfim, toda a comunidade escolar e seu embasamento político educacional na sociedade. Uma escola pedagogicamente boa se baseia sempre numa pedagogia que promove a saúde, é orientada na busca de desenvolvimento e, por essa razão, é sanativa.

A Vivenda tem experimentado, cada vez mais, um fazer preventivo, e como conseqüência disso, além das nossas próprias constatações, temos ouvido freqüentemente das famílias (inclusive dos próprios alunos), que sentem seus filhos mais felizes e equilibrados à medida que são convidados a se desenvolverem em todos os aspectos, que são exigidos, sim, a usarem o seu melhor na busca do conhecimento, porém com grande respeito às suas reais possibilidades de aprendizagem.


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