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A Escola Vivenda e seus princípios pedagógicos

 

O que é a antroposofia?

A palavra significa “conhecimento do ser humano”.

Antroposofia, enquanto filosofia e prática, procura responder às perguntas mais profundas do homem por meio da razão, porém sem negar-lhes anseios espirituais. Possibilita novas perspectivas ao ser humano na ampliação de suas faculdades mentais, elevando sua percepção e seu pensar a outras dimensões. Considerando o homem uma síntese de todo Universo, dimensão que permeia e transcende a física. Os resultados das pesquisas antroposóficas serviram de fundamento para iniciativas sociais – a pedagogia Waldorf, a medicina e farmacologia, a agricultura biodinâmica, a pedagogia terapêutica, e a pedagogia social.

“Um caminho de conhecimento que pretende fazer o espírito humano chegar à união com o cosmo.”

Definição da Antroposofia por Rudolf Steiner

O que é o Ensino Waldorf? 

Desenvolvido por Rudolf Steiner em 1919, o ensino Waldorf baseia-se em uma abordagem que trata das necessidades e do desenvolvimento da criança em crescimento e do adolescente na fase de amadurecimento. Os professores Waldorf empenham-se em transformar o ensino em uma arte que eduque a criança como um todo – a vontade (fazer), o sentir e o pensar.

A Escola Vivenda desenvolve ensino Waldorf?

Não adotarmos a metodologia Waldorf, faz-se exemplo disso o tratamento que damos ao processo de alfabetização.

Trazemos sim, uma educação fundamentada nos princípios humanistas da antroposofia. Buscamos a visão de homem e sociedade apresentada por Rudolf Steiner. O nosso grupo de professores estuda suas idéias e participa de oficinas pedagógicas promovidas por profissionais com visão ampliada pela antroposofia. Atualmente alguns professores fazem a formação em Pedagogia Curativa e Terapia |Social.

O dia-a-dia da Escola Vivenda é permeado por atividades e cuidados próprios da visão antroposófica, mas não adotamos a metodologia Waldorf. 

 

A Escola Vivenda é religiosa? 

Não somos sectárias e não nos denominamos religiosas. Educamos todas as crianças, não importando seus contextos culturais ou religiosos. A proposta pedagógica é ampla e, como parte de sua tarefa, procura trazer o reconhecimento e a compreensão de todas as culturas e religiões do mundo. Não fazemos parte de nenhuma igreja. Não estamos ligadas a nenhuma doutrina religiosa em particular, mas baseiamo-nos na crença de que há uma dimensão espiritual para o ser humano e para tudo na vida. As nossas famílias são oriundas de uma ampla gama de tradições e interesses religiosos.

 

 Como é o currículo na Escola Vivenda? 

O ensino oferecido na Escola Vivenda aborda todos os aspectos legais da educação escolar de uma forma única e ampla. O currículo é planejado para atender as diversas etapas do desenvolvimento da criança. Os professores se dedicam a criar um entusiasmo interior genuíno pela aprendizagem que é essencial para o sucesso educacional. As crianças do maternal e da educação infantil aprendem principalmente através da imitação e imaginação. O objetivo do jardim é desenvolver na criança pequena um senso de admiração e reverência por todas as coisas da natureza e nas relações humanas. Isto cria uma ansiedade pelos assuntos acadêmicos que virão a seguir no ensino fundamental.

As atividades na educação infantil incluem:

  • contar histórias, marionetes, brincar criativo;
  • canto, música;
  • jogos e brincadeiras de dedos;
  • pintura, desenho e modelagem;
  • assar e cozinhar, passeios na natureza;
  • língua estrangeira;
  • rodas rítmicas e nas celebrações das festas e estações do ano.

As crianças do ensino fundamental aprendem através da orientação de um professor de classe. O currículo inclui:

  • Português baseado em literatura, mitos e lendas e multiplicidade textual;
  • História cronológica, incluindo as grandes civilizações do mundo e geografia;
  • Ciência que pesquisa geografia, astronomia, meteorologia, ciências físicas e biológicas;
  • Matemática que desenvolve competência em aritmética, álgebra e geometria;
  • Línguas estrangeiras;
  • Educação física;
  • Artes, incluindo música, pintura, escultura, teatro, desenho;
  • Trabalhos manuais como tricô, costura, crochê, tecelagem, trabalhos em madeira.

 

A Escola Vivenda prepara as crianças para o mundo “real”? De que forma? 

Somos certamente influenciados por aquilo que o mundo nos traz, mas o fato é que o mundo é configurado pelas pessoas e não as pessoas pelo mundo. Porém, essa configuração do mundo só é possível de uma forma saudável se as pessoas estiverem de posse de sua natureza total como seres humanos.

O ensino em nossa sociedade materialista foca no aspecto intelectual do ser humano e não valoriza as outras partes que são essenciais para o nosso bom desenvolvimento, que são: a nossa vida de sentimentos (emoções, estética e sensitividade social), nossa força de vontade (a habilidade para fazer as coisas) e nossa natureza moral (ser transparente sobre o certo e o errado). Somos incompletos sem a visão do desenvolvimento integral do Ser Humano. Para isso, numa escola com princípios humanistas os assuntos práticos e artísticos desempenham um papel tão importante quanto à gama total de assuntos acadêmicos tradicionais que a escola oferece. O prático e o artístico são essenciais para se conseguir o preparo para a vida no mundo “real”.

O nosso ensino reconhece e respeita a extensão total das potencialidades humanas. Ele trata da criança como um todo se empenhando em despertar e enaltecer todas as capacidades latentes. As crianças aprendem a ler, escrever e fazer contas; estudam história, geografia e ciências. Além disso, todas as crianças aprendem a cantar, tocar um instrumento musical, desenhar, pintar, modelar argila, esculpir e trabalhar com madeira, falar claramente e atuar em uma peça de teatro, pensar independentemente, e trabalhar de forma harmoniosa e respeitosa com outras pessoas.

O desenvolvimento destas diversas capacidades está inter-relacionado. Por exemplo, tanto os meninos quanto às meninas aprendem a tricotar no primeiro ano. A aquisição desta habilidade básica e prazerosa os ajuda a desenvolver uma destreza manual que, após a puberdade, será transformada em uma habilidade para pensar claramente e “tricotar” seus pensamentos em um todo coerente.

O ensino na Vivenda, assim como o ensino Waldorf, tem como ideal uma pessoa que seja informada sobre o mundo e sobre a história e cultura humana, que tenha muitas habilidades práticas e artísticas, que sinta uma reverência profunda e uma comunhão com o mundo natural, e que possa agir com iniciativa e em liberdade perante as pressões econômicas e políticas. Há muitos alunos de todas as idades, formados em escolas Waldorf , que personificam este ideal e que são talvez a melhor prova da eficácia do ensino. A preparação para a vida inclui o desenvolvimento de pessoas com vários atributos e que se completam através das suas relações com o mundo todo.

 

Quando falamos em educação de crianças e jovens, a pergunta seria: Qual é o objetivo ou propósito desta educação? 

Falar em objetivo da educação nos remete a algo externo à criança, como resposta pode-se observar que se tem dado as escolas uma estrutura tal que delas faça saírem cidadãos, adeptos, fiéis ou partidários de determinada orientação. Nosso ponto de partida é completamente diverso, nossa pergunta inicial engloba uma fecundidade em sua prática educativa cotidiana A pergunta básica da educação deve ser: o que eu, como adulto, como educador, tenho que fazer à frente de uma criança que, através do nascimento, entra no mundo? O que tenho que fazer para que esta criança possa realizar tudo o que traz consigo como faculdades inatas e que determinarão o seu destino?

 

O papel da Escola é trabalhar também as competências intelectuais ou exclusivamente essas habilidades?

É importante deixar bem assentado, que se concebemos o ser humano em sua integridade de corpo, alma e espírito, não podemos nos permitir o luxo de descuidar de qualquer desses aspectos. Como professores frente aos nossos discípulos, não nos hão de interessar em primeiro plano as matérias de ensino, como objetivo ou meta, mas sim, em todo momento, a totalidade do ser humano na sua essência, na sua integração.

 

O que a antroposofia chama de espírito?

Espírito não é outra coisa que não simplesmente o ativo, o criador, o profundamente pessoal, que irradia do ser humano, sem dar-lhe nenhum toque de confissão religiosa ou política, que são modificações posteriores desse vocábulo.

  

O querer, o sentir e o pensar. Qual é a realidade inerente a cada um destes termos?

É de suma importância para a atitude do professor frente a seus educando, ter presente que a vontade, a sensibilidade e o pensamento são manifestações de uma só alma indivisível, e não de entidades que coexistam separadamente no homem. Podemos considerar o pensamento como a velhice da vontade ou à vontade como juventude do pensamento. Por conseguinte, a alma se desenvolve desde a vontade até o pensamento. O sentir, o sentimento, ocupa uma posição média, de mediador entre a vontade e o pensamento, sendo, por conseguinte, porta de acesso a ambos. Se temos presente que nosso sentimento influi, modifica nosso modo de pensar em direção ao alto, rumo ao cérebro, como modifica nosso modo de querer e nossos atos de vontade em direção aos membros, então teremos compreendido que existe no ser humano uma região central, precisamente a sensibilidade, que reside no coração, a partir da qual se pode chegar à totalidade da alma humana, e não só a um dos seus aspectos.

 

O ensino , tanto no que diz respeito ao que se ensina (escolha do conteúdo) quanto ao modo como se ensina, tem influência na saúde do estudante?

É possível deduzir que, pela maneira como apresento aos meus alunos determinada matéria de ensino, exerço uma direta influência sobre seu estado de saúde. Caso se Apela unilateralmente ao seu intelecto, se o sobrecarrego, crio, desde a infância, para o restante de suas vidas, um perigo para sua saúde.

 

Por que a Escola Vivenda preocupa-se tanto com a forma de ensinar?

Desde cedo as crianças vão à escola para aprender. Essa é a máxima da Escola, não se pretende negar isto. Mas, para as crianças, a forma como aprendem, o como da aprendizagem, é muito mais importante do que o quê aprende. O que aprendem e como o aprendem? Isto influi, por toda a vida, sobre sua saúde, sua própria confiança e sobre a eficácia de suas energias mentais; isto importa muito mais do que a matéria de ensino como tal, principalmente até os 12 anos de idade.

 

O que é o destino para a antroposofia?

O desenvolvimento de todas as faculdades e condições inatas é o que chamamos de seu destino. A criança deve levar a termo seu próprio destino, colaborar na sua formação, chegar a amá-lo.

No destino humano influi poderosamente o aspecto social; a convivência. Não posso ter um destino completamente isolado, ilhado, que não seja estimulado pelo meio ambiente; o destino tem seu aspecto social e também seu aspecto religioso, porém sempre há uma parte do destino que me é exclusiva, pessoal. Não obstante, ao dizer isso não quer dizer que o destino seja unicamente uma “sinfonia” social, nossa contribuição específica para a formação do destino está na forma como reagimos ante o que parte ao nosso encontro. Isso é pessoal, é exclusivamente nosso.

 

Qual a relação entre a interferência pedagógica e o destino?

É de curto alcance a prática de medir a criança segundo seu aproveitamento de determinada disciplina e de formular minhas máximas educativas sob o ponto de vista de transmiti-la o mais rapidamente possível. Rapidez e velocidade são princípios excelentes na construção de automóveis, mas não constituem um salutar princípio pedagógico.

A criança é criança por 12, 18 ou 21 anos. Chegará, porém o dia em que tomará seu destino sob sua própria responsabilidade. É então que começa a fase da vida cuja preparação era o objetivo da escola e do lar. A vida toda é uma unidade; não devemos focalizar a infância separadamente, senão como parte de uma vida integral. O homem é unidade não só de corpo, alma e espírito; também o é no curso da sua vida com a incógnita do seu final. O professor há de ter uma visão que abranja o destino futuro da criança.

 

A Escola, então, interfere na vitalidade do educando?

Se, por exemplo, enamorado do meu método de ensino, sobrecarrego o educando com excessivo material para memorizar, e a criança empalidece (pode haver muitas outras causas de palidez, porém tenho a obrigação de examinar se a causa se prende ao modo de ensinar), crio na criança uma disposição que se lhe fixa para toda a vida. Essas criança talvez sofrerá de esclerose aos 50 anos, posto que injetei a tendência ao envelhecimento nas suas forças vitais quando tinha 8 a 9 anos.

 

Exigir dos pequenos alunos atitudes mais sérias frente as suas tarefas é positivo?

Não basta conhecer a criança; como professores temos que intuir o homem, o ser humano que passa por etapas, através das quais se transformam suas idéias e conceitos, alargando-se ou estreitando-se.         E assim deixamos intata, propositadamente, a pergunta sobre se o brinquedo infantil não é mais importante, mais rico que a ocupação que o vem substituir. Quem observa a “solene seriedade” da brincadeira infantil pode sentir como ideal: “Quero formar na criança, para seu aprendizado, a mesma solene seriedade que agora tem para com o jogo”. Como salvaguardar para a vida, para a aprendizagem, o entusiasmo que a criança dispensa ao brinquedo? Quais são as transformações que aí entram em consideração?

A seriedade da vida, que começa na escola, não deverá ser uma seriedade cinzenta e tristonha, mas sim uma seriedade cheia de entusiasmo e fervor.

 

Atualmente os novos vestibulares verificam a capacidade dos candidatos criarem soluções, resolverem problemas articulando as diversas informações disponíveis, o mercado de trabalho busca profissionais criativos e comprometidos. São essas mesmas características que as crianças exercitam quando jogam?

Transformar o entusiasmo pelo brinquedo em entusiasmo pelo estudo; o prazer na brincadeira pelo prazer na aprendizagem. Este é um propósito que julgamos digno de se levar em conta.

Em que consiste o atrativo do jogo infantil? A criança põe em movimento sua fantasia, suas faculdades criadoras, e com a experimentação desses fatos constrói uma nova realidade. Essas energias espirituais criadoras são as que queremos conservar para que a criança delas possa continuar dispondo mais adiante em sua vida, porque são as energias criadoras infantis as que devem prosseguir palpitando, tanto na juventude como no homem formado.

 

Como são distribuídos os conteúdos das diferentes disciplinas na Escola Vivenda?

Para desenvolver os conteúdos o professor necessita de tempo; não o pode fazer às carreiras, e aí está a razão porque as aulas tem maior duração.  Além disso, não se desenvolve os conteúdos todos de uma só vez, mas concentra-se em um deles por duas ou três semanas e passa, a seguir, a outro conteúdo por um período similar: duas semanas de Matemática, três de História ou de Ciência, etc. Facilmente é possível imaginar com que profundidade pode uma criança penetrar numa matéria quando diariamente relembra o que antes ouviu e todo dia avança mais um pouco em cada disciplina. Este processo permite um contato muito mais íntimo com cada setor do conhecimento. No ensino fundamental II cada aula tem duração de 60 minutos.

 

Como se inicia um dia no ensino fundamental da Escola Vivenda?

Cada aula na Vivenda se deriva de um maior respeito às leis do homem. A aula tem que começar, como toda obra de arte, com o prólogo. Devemos ter presente que as crianças, ao entrar na escola, acham-se tomadas das impressões heterogêneas que cada uma vive durante o caminho da escola, diferentes em cada caso. Além disso, cada criança vem de diferentes lugares e ambientes, de maneira que no momento em que todas se reúnem na classe, não estão afinadas como uma orquestra quando executa uma obra de conjunto. A primeira tarefa do professor, antes de começar a aula propriamente dita, consiste, pois, em afinar os diversos instrumentos que integram a orquestra, em fazer desaparecerem as dissonâncias. A aula se inicia com um verso breve e sentencioso, que todos recitam em comum. Logo se segue um breve período de música, em forma de canto, ás vezes acompanhado de flauta, e que ajuda a sintonização geral das crianças. A música apela diretamente à sensibilidade e ao sentimento rítmico das crianças, e por essa razão é o melhor meio para reunir as individualidades em coro. Esta abertura musical é de importância até cerca dos 12 anos. Temos podido comprovar que o tempo que se investe neste prólogo musical não é tempo perdido, e sim, pelo contrário, muito bem aproveitado, já que a afinação ou a sintonização é um ato que abre os corações, que abre a compreensão para o que se segue depois.

Depois dos exercícios musicais, faz-se seguir alguma recitação, de preferência também em coro. Escolhe-se uma poesia que guarde alguma relação com o tema principal que se está estudando na classe. Já que a linguagem, a palavra falada, apela à consciência mais do que a música, limitamos os exercícios musicais diários mais ou menos até o final do Fundamental I, enquanto a recitação em conjunto cultivamo-lo de preferência, ainda que não necessariamente, até o final do Fundamental II, também de maneira diária.

 

Como se desenvolve o conteúdo?

Em cada aula devemos penetrar intelectualmente na matéria que se estuda e no que também se apresentou em profundidade intelectual no dia anterior. Este é o primeiro passo. Logo se passa a apresentar, em forma de narração e apelando de imediato a sensibilidade da criança, um tema novo que enriqueça sentimentalmente, que dê nova roupagem ao que se estudou no dia anterior e, por fim, ao aproximar-se o término da aula, devemos efetuar uma espécie de resumo, um trabalho no qual intervenha a vontade da criança: escrever, desenhar, isto é, um trabalho do qual as crianças participem com atividade própria.

Portanto, depois do prólogo, como primeira fase, recapitula o que se estudou no dia anterior, ressuscitando imagens, visualizações e representações do que então apresentou em forma narrativa. É o momento em que, pelo “conto” ou explicação da aula precedente, chega-se a um ensino proveitoso, a uma dedução, a uma “moral da história”.

 

Nenhum conteúdo é desenvolvido em um só dia?

Tem perfeito fundamento deixar para manhã seguinte, em lugar de vincular diretamente ao tema que se apresenta, no mesmo dia, o resumo, a dedução, a moral que dele derivar é o desejo de se proceder de acordo com a natureza humana. A noite que medeia entre a explicação e as deduções é de suma importância, porque durante a noite “digerimos” as experiências que tivemos durante o dia, digerimos e, ao mesmo tempo, tornamos clara a situação e, ao despertar na manhã seguinte, temos as experiências do dia anteriores mais ordenadas, mais iluminadas – poderíamos dizer, até – pela luz da verdade. Assim é que ressurgem na memória. Portanto, também a noite e o submergir-se no sono pertencem ao homem, concebido em sua totalidade. Analogamente no ensino, a repetição do que se viu no dia anterior também nos ajuda no mesmo sentido. Se, pela manhã, no inicio da aula principal, discutimos conceitualmente o que examinamos no dia anterior, temos a experiência da véspera diante de nós em forma clarificada, purificada, e não como se encontrava quando estávamos sob o impacto da impressão imediata. Depois do prólogo e da primeira parte, que apela as energias intelectuais, vem a segunda parte, expositiva, que apela ao sentimento e logo a terceira, o desenho da experiência ou um resumo do que se estudou, isto é, o exercício da vontade.

 

Como se encerra uma aula?

Os últimos 15 minutos da aula dedicam-se ao epílogo, algum conto que não necessita guardar relação direta como o tema de estudo, mas que distribua calor às almas das crianças.

Em cada aula, as crianças devem rir pelo menos uma vez. Uma aula sem, pelo menos, uma gargalhada, é uma aula mal preparada. E se o professor não encontrou oportunidade para suscitá-la, que o faça no final, pelo menos, contando alguma piada.

O encadeamento das matérias, por períodos de duas ou três semanas, permite uma concentração e, em seguida ao seu “arquivamento”, um “descanso” por algum tempo. Com igual intensidade, com igual entusiasmo juvenil, entra-se em nova disciplina, para de novo ter experiências intensas com esta outra. Isto possibilita um exercício da faculdade mental no mais profundo sentido.

 

Por que não se atribui notas aos alunos do ensino fundamental I?

Nossa opinião, nesse sentido, indica que a classificação numérica do rendimento reflete unicamente fatos intelectuais que não constituem como sabemos a totalidade do seu ser, e que uma seleção baseada nesse principio não é compatível com uma atividade educadora, porque qualifica segundo o que não é mais importante – o que não quer dizer, porém, que seja o menos importante. A classificação por notas não leva em consideração a responsabilidade, a sensibilidade, o propósito de servir, de ser útil, as qualidades humanas, as esperanças que podemos depositar em que alguma criança possa sobrepor-se às suas próprias dificuldades. Tudo isso se perde na classificação por notas. Renunciamos, portanto, a este principio seletivo que, em última análise, é um bom princípio apenas no “campo biológico”. Sabemos que, por métodos semelhantes de seleção, podem ser obtidos melhores cavalos, melhores cachorros, melhor trigo: esse princípio, porém, não pode ter validade no campo da educação humana, principalmente entre aqueles que começam a se descobrir enquanto estudantes.

 

A criança ficaria em desvantagem se fosse transferida de uma outra escola para a Escola Vivenda ou da Vivenda para uma outra escola? 

As crianças que são transferidas para a Escola Vivenda estarão em um nível desejável com relação à leitura, matemática e habilidades acadêmicas básicas. Porém, de forma geral, elas terão muito a aprender em termos de capacidade de coordenação corporal, postura, atividades artísticas e sociais, caligrafia cursiva e capacidade de ouvir. Ouvir bem é particularmente importante uma vez que a maioria do conteúdo curricular é apresentada oralmente na classe pelo professor e é uma qualidade cada vez mais difícil de se encontrar nas pessoas hoje em dia. A relação entre a criança e o professor é a base para uma aprendizagem saudável, para a aquisição de entendimento e conhecimento e não só informação.

As crianças que estão acostumadas as escolas “apostiladas” terão que se adaptar e principalmente desenvolver a qualidade de ouvir e perceber o próximo. Elas têm que aprender a abordar as artes de uma forma mais objetiva e não só como um meio de expressão pessoal. Em contraste, ao estudar a natureza, a história e o mundo, elas precisam relacionar o que aprendem à sua própria vida e existência. Quando as crianças se envolvem com o que aprendem sobre o mundo, ele se torna verdadeiramente significativo para elas.

As crianças que são transferidas da Escola Vivenda estão normalmente bem preparadas quanto aos estudos de um modo geral, principalmente em relação à capacidade compreensiva dos textos, às atividades práticas e artísticas, e o raciocínio matemático. Levarão para a nova escola uma força individual distinta, assim como uma confiança pessoal, e uma apreciação pela aprendizagem e pelas relações humanas. 

 

SOBRE OS TEMPERAMENTOS E SETÊNIOS 

Uma pequena história sobre os quatro temperamentos

 

“Num caminho, quatro pessoas chegam sucessivamente a um obstáculo; uma pedra caiu e obstruiu sua passagem. A primeira pessoa, o sangüíneo, vem cantando; ao ver a pedra, brinca sobre ela e alegremente continua a viagem. Pouco depois, um fleumático chega ao local, pára um largo tempo; finalmente, encontra um desvio que lhe permite dar volta ao obstáculo e, vagarosamente, continua seu caminho. A seguir, chega o terceiro, o melancólico: “Claro, estas coisas só acontecem a mim”. Permanece muito tempo sentado sobre a pedra, refletindo até o ponto de esquadrinhar como o infortúnio chegou ao mundo, e porque esse infortúnio sempre há de lançar obstáculos precisamente nos caminhos que ele utiliza. Levanta-se e volta para casa. Finalmente, aproxima-se, o colérico, com passo decidido: vê a pedra, detém-se por um segundo e logo a empurra com disposição, até que consegue tirá-la do caminho. Continua sua marcha, não deixando de voltar-se algumas vezes para contemplar com satisfação seu êxito.”

Assim somos nós, cada um com uma tendência de ação frente aos acontecimentos da vida. Reunimos duas ou mais dessas características. O perfeito equilíbrio consiste em trazermos traços dos quatro tipos – sanguíneo, melancólico, fleumático e colérico-, porém sempre haverá predominância de um deles. Essa predominância determina inclusive a constituição física do indivíduo.

O conhecimento e a observância a cada temperamento é uma grande contribuição à educação, uma vez que nos ajudam a entender melhor o homem.

Ao considerarmos os temperamentos quando educamos uma criança ou um jovem, somos mais respeitosos, descobrimos melhores caminhos para gerar harmonia no grupo, boa convivência com as diferenças, desenvolvimento emocional sadio e, assim, um ambiente propicio às aprendizagens.

 

Sobre os setênios 

O que são setênios?

Segundo a visão antroposófica, a nossa vida passa por modificações importantes a cada sete anos, sendo os quatro primeiros setênios, tempo de formação do indivíduo, assim, o ser humano teria quatro nascimentos: primeiro o nascimento propriamente dito, logo, o segundo, o amadurecimento para a escola, aproximadamente aos 7 anos, a seguir o terceiro, o amadurecimento sexual ou “amadurecimento para a vida na terra”, ao redor dos 14 anos; e, finalmente, o quarto nascimento, o amadurecimento para forjar e dirigir o próprio destino, à idade de 21 anos. Somente depois de 21 anos de vida, o homem realmente nasceu em sua integridade.

 

Quais são as características do primeiro setênio?

Em educação, cada um destes setênios tem suas próprias leis; cada um reclama do educador uma atitude e técnica completamente distintas. E sobre elas vamos dar algumas explicações.

O recém-nascido é todo ele, um só organismo sensório. Sabemos que a criança capta o sabor do leite não só como no paladar, não só como a língua, mas como todo o organismo. Cada mãe pode confirmar esta observação. Um ímpeto de cólera de um pai irado perturba o ritmo circulatório da criança. Se uma criança sofre, constantemente, semelhantes ataques de seu pai, adquire disposição ao comportamento colérico. Uma sirena de fábrica, ou um choque, provoca o tremor de todo o seu corpo. A criança capta, porém, não só os ruídos e outras impressões toscas e grosseiras, capta também, com igual sensibilidade, as vibrações mais sutis e delicadas que se produzem ao redor. E imita-as, utilizando-as na formação do seu cérebro, do seu coração, do seu fígado, na formação de seu corpo e do seu espírito. As palavras mágicas para a educação do primeiro setênio são, por conseguinte, “imitação” e “exemplo”. A criança aprende o idioma materno por imitação, e não por aprendizagem; capta os gestos, o modo de andar, os trejeitos, os costumes dos adultos, e conforma seu corpo de acordo com as impressões que recebe.

Portanto, para uma criança de até cerca de 7 anos, que se encontra em nossa companhia, todos somos educadores, queiramo-lo ou não, e não há responsabilidade maior para o adulto, para nós, do que nosso comportamento em presença da criança. O mais saudável para a evolução de uma criança no primeiro setênio é que procuremos, até onde isto seja possível, circundá-la de coisas e impressões dignas de serem imitadas.

 

Então é correto dizer que nesse período as aprendizagens se dão através da imitação?

Às palavras mágicas do primeiro setênio, “imitação” e “exemplo”, podemos juntar um terceiro conceito: “o mundo é bom”. Devemos criar em torno da criança um mundo ao qual ela possa entregar-se em sua imitação amorosa, e que lhe proporcione realmente a sensação que esse conceito encerra.

 

Afirmar que o mundo é bom, significa negar os perigos existentes?

Sabemosi perfeitamente bem que mais adiante a criança tem que lutar também com o mal que há no mundo, mas para essa futura luta estará muito mais equipada, muito melhor preparada, será muito mais forte frente às provas que a vida posterior lhe impuser, se no primeiro setênio de sua via sentiu, ou melhor, foi levada a sentir a bondade do mundo. A vitória incondicional do bem sobre o mal. Num mundo circundante digno de ser imitado, a criança sente, se sua confiança inata não for desde logo frustrada, vigor e saúde interior e exterior.

 

É positivo que no primeiro setênio a escola solicite as forças do pensar abstrato da criança? 

Da mesma forma que não se deve atuar sobre os órgãos sensoriais da criança que ainda se encontra no ventre materno, assim também não se deve atuar sobre suas energias intelectuais, sobre sua faculdade de aprender, enquanto seu organismo estiver empenhado no crescimento.

 

No segundo setênio qual o melhor veiculo para promover aprendizagens? 

Mesmo depois do sétimo ano, quando o crescimento chegou à fase decisiva, e quando uma parte dessas energias se libertou e pode ser aproveitada na aprendizagem e na formação de representações intelectuais, ainda assim as forças vitais têm que levar a cabo uma grande tarefa no desenvolvimento e organização do corpo, até a puberdade, pelo que não se deve lançar mão de toda força vital, e sim de apenas uma parte dela. Nesta tarefa construtiva que as energias vitais continuam executando desde os sete anos até a puberdade, a criança receberá considerável ajuda se, ao invés de sobrecarregá-la mental e intelectualmente, apresentamo-lhe a matéria através de imagens significativas, de parábolas, mediante tudo que tenha forma artística.

A parábola, toda a forma artística, contém implicitamente algo que aponta para o além do Eu infantil, transcende-o e trabalha como semente das energias que corresponderão à fase subseqüente. Amor e respeito são os sentimentos indicados para o segundo setênio, dos 7 aos 14 anos. Assim como para o primeiro setênio eram importantes as palavras mágicas “imitação” e “exemplo”, para o setênio seguinte as palavras são “respeito por amor” ou “autoridade amada”. Autoridade amada, quer dizer: “Aceito o professor como autoridade porque o amo e sigo o caminho ele me indica”.

 

O que a criança e o jovem esperam do educador no segundo setênio?

Autoridade amada! Porque a verdadeira autoridade não se impõe nem pode ser forçada. A criança a outorga como presente ao educador e este, por meio da auto-educação, deve procurar fazer- se credor dessas oferendas. Assim como uma obra artística causa uma impressão imediata, sem necessidade de explicação, assim também a impressão imediata da autoridade amada deve suscitar imagens que sirvam para harmonizar a consciência moral, os hábitos, as inclinações e até mesmo a unilateralidade dos temperamentos. Feliz o jovem que tem professores e educadores dignos e que para eles possa levantar seu olhar com respeito e afeição! Através dos olhos de seus mestres o jovem contempla o mundo, aprende a repudiar o mal e a apreciar a beleza do bem.

 

Qual a importância dos conteúdos, dos conhecimentos nesse período?

Os grandes exemplos dos personagens da História se somam aos bons modelos. Em termos de valor educativo, do que é digno de veneração, de afeição e respeito. São de importância secundária as datas históricas, as relações casuais, os juízos e as apreciações críticas. Muito mais importantes são as imagens que suscitam, o valor que lhes atribui a imaginação da criança, que está, nessas idade, sempre pronta e disposta a imitar, a venerar, a rivalizar em qualidade com esses personagens.

 

Dos sete aos catorze anos é eficaz corrigir os comportamentos inadequados com severidade? 

No segundo setênio, dos 7 aos 14 anos, não é possível eliminar o mau comportamento ou a mal criação mediante explicações ou admoestações com o dedo em riste, muito mais efetivos são os contos, as parábolas, que atuam diretamente sobre a imaginação e a fantasia, pois este modo de proceder está de acordo com a própria natureza da humanidade. No cotidiano, as ordens, a proibição, somente chegam ao ouvido e às vezes nem a este; a parábola e o conto vivo chegam até o coração e podem contribuir muito mais para a erradicação de maus costumes.

A escola que fizemos no passado apresentava-nos o conhecimento de forma teórica, fria e distante (era o conhecimento contido no livro, não na vida), jamais vivenciávamos um conceito. Será por isso que quase tudo do que estudamos naquela época foi esquecido?

Sem dúvida. Inclusive a aula de Ciências Naturais deveria ter um caráter artístico e estimulador de imaginação. Todos os segredos da natureza e as leis da vida não deveriam, até onde fosse possível, ser apresentados em conceitos intelectuais e concisos. Melhor seria se o fossem em parábolas, que deixam a criança vislumbrar, conjeturar muito mais do que nessa idade a supomos capaz de fazer. É desesperador para a criança, na primeira aula de Física, ver a agulha da bússola como pura ilustração das leis de atração ou repulsão magnética. Ao contrário, é de um valor ilimitado para o ânimo do homem em formação que o professor se utilize de sensíveis fenômenos físicos para explicar, em forma de parábola, toda busca de direção, de norte, de caminho de vida. A agulha magnética nas mãos de Cristovão Colombo tem um significado muito diverso do que o tem nas mãos de um professor de Física.

É muito importante que o jovem entre nos segredos da existência primeiro em forma de parábola; mais adiante, por meio de leis naturais e, finalmente, através de fórmulas e suas aplicações úteis para a técnica.

O discípulo esquece as palavras que lhe chegam ao ouvido na idade escola, porém não as experiências, as representações vividas por sua imaginação.

 

Então, podemos afirmar que, até os 14 anos, ensinamos melhor quando abordamos os conteúdos de forma artística e mobilizamos os sentimentos dos alunos?

Vamos ilustrar com um exemplo: se quero falar da existência da alma a uma criança em idade primária, se quero dizer-lhe que a alma depois da morte se separa do corpo, posso seguir dois caminhos: um, e o da afirmação seca e direta, que atua como dogma, como crença da qual a criança não pode tirar nenhum proveito efetivo. Crenças e convicções são discutíveis, especialmente porque são essencialmente teóricas e não estão fundamentadas numa rica e expressiva experiência. Nesse caso, a convicção não é mais do que a expressão de palavras sem conteúdo. Em troca, se explico que a lagarta, logo convertida em crisálida, finalmente, através de misteriosa transformação, dá lugar à borboleta, a libertar-se de sua “casa”, rica em cores, saturada de luz, ganhando altura por sobre o campo onde antes se arrastava, narro à criança uma parábola que não só apela ao intelecto como se dirige a toda sua alma. Em toda sua formosa plenitude, a criança capta as imagens do processo do surgimento da borboleta e, quando muito mais adiante, o mesmo se lhe explique em conceitos intelectuais, essas experiências infantis, essas emoções, reverberem ainda em sua alma e darão plenitude à penetração conceitual própria da idade adulta.

 

 

 

SOBRE A EDUCAÇÃO INFANTIL

A Escola e as crianças de 2 e 3 anos

 

Por que colocar as crianças tão cedo na Escola?

No desenvolvimento do ser humano um dos períodos mais importantes da vida é sem dúvida a primeira infância. Com o propósito de contribuir para a formação integral das crianças é que está estruturado a nossa Educação Infantil.

Considerando-se que nesta fase da vida a criança está desenvolvendo seus sentidos, seu pensar imaginativo, sua capacidade de criar, que está estruturando seu corpo físico e principiando sua vida de relações sociais, dizemos que as vivências nesse momento são extremamente edificantes.

 

Como é o dia dos pequenos na Vivenda? 

As atividades da criança começam de forma tranqüila e alegre, ela participa de tarefas simples e repletas de sentido. Em alguns dias ela ajuda a preparar o lanche, outro lava os panos de brincar, algumas vezes desenha ou pinta com aquarela, vê a professora consertar os brinquedos da classe, costurar as roupinhas das bonecas. Todo dia brinca dentro da classe e livremente fora, no parque.

Enquanto junto com a professora algumas crianças integram-se a estas atividades, outras brincam na classe utilizando-se dos mais diversos materiais que permitem sua livre expressão e diferentes percepções táteis como troncos de madeira, sementes, panos, bonecas simples de tecidos de algodão, etc. As crianças envolvem-se em um brincar pleno de calor e de imaginação. Constroem casas, se fantasiam com panos assumindo personagens no brincar, viajam na fantasia, cadeiras se transformam em seus barcos ou trens, numa atmosfera de intensa imitação e criatividade.

É uma rotina que remonta os tempos em que as mães não saiam para trabalhar, as famílias eram mais numerosas e as crianças passavam menos tempo na TV?

Sim, a idéia é resgatar o espaço de acolhimento, convivência e estimulação que foi tirado de nossos filhos pelos “tempos modernos”. Os afazeres domésticos são repletos de processos simples, mas altamente estruturantes quando vivenciados pelas crianças menores, além disso, a convivência social ampliada torna as crianças mais inteligentes.

E a hora do lanche, como é?

Enquanto as crianças estão na sala com seu grupo, se espalha pela Vila (espaço da Escola especializado para a Educação Infantil) o aroma delicioso do pão assando, dos lanches sendo preparados, às vezes do chá de ervas, outras vezes da pipoca, dos legumes cozinhando na sopa (no inverno), ou das frutas sendo picadas para serem servidas.

Mas antes da tão esperada hora do lanche, é o momento em que o grupo todo se une para a roda cantada cheia de versos, gestos e canções quando então são trazidos para as crianças os elementos das estações do ano e das festas que enriquecem a época do ano.

Em seguida as mãozinhas são lavadas e que delícia! Hora de saborear o delicioso lanche preparado com a ajuda das crianças, composto de ingredientes naturais e saudáveis sendo servido com grande alegria e precedido de versos como um gesto de gratidão à natureza e a todos que de alguma forma contribuíram para que ele chegasse à mesa das crianças.

Como se dá a exploração dos espaços da Escola pelas crianças de 2 e 3 anos?

Após o lanche, é hora de brincar lá fora em meio aos raios de sol, terra, árvores, troncos, areia e água. É um momento de grandes explorações e brincadeiras em grupos, em que a natureza ao redor é desbravada movimentando todo o corpo. Brincar com cordas, correr, subir, descer, enfim, no brincar no parque a criança tem a chance de experimentar e vivenciar as noções de seu próprio corpo com movimentos diversos, equilibrando-se, pendurando-se, percebendo peso, velocidade, altura, lateralidade, o que proporcionará o desenvolvimento de sua coordenação motora, imagem corporal, noção espacial, equilíbrio, que são importantíssimos para o seu desenvolvimento escolar mais tarde.

 

As histórias são importantes nessa fase?

Sim, são elas que vão compor todo o imaginário infantil, o que possibilitará e ampliará a capacidade de entender e interagir com o mundo ao seu redor.

Na rotina escolar, após a alternância entre o brincar dentro da sala e o brincar fora, criando um ritmo e uma respiração, concentração e expansão do ponto de vista da qualidade das atividades, é que então se encerra o dia na Escola com uma linda história contada pela professora enquanto as crianças, sentadas em círculo, ouvem atentas sorvendo-a como um alimento para sua vida imaginativa.

Na Escola Vivenda a criança é envolvida pelos sentimentos de segurança, beleza e alegria, vivenciando um mundo bom pertinente à infância e desenvolvendo-se física, anímica e moralmente.

 

Educando através da alimentação

 

Qual a importância de uma alimentação variada?

Quando a criança nasce ela recebe o mundo através do ar que entra em todo o seu ser. Depois ela o recebe através dos alimentos. O leite materno é um alimento cósmico, que ajuda a criança a ir saindo do céu e chegando à terra. Aos poucos vamos introduzindo os outros alimentos, que são importantes não só por todas as suas qualidades nutricionais, mas porque trazem as variedades e diferenças do mundo que nos cerca. Cada um trás uma qualidade diferente.

Por isso a orientação alimentar ajuda na formação da personalidade também. Ao provar os alimentos a criança está se abrindo para experimentar as diferentes características da terra. A variedade na alimentação constrói a abertura para experienciar toda a natureza e a variedade dos seres que nela habitam. Aprender a mastigar alimentos sólidos fortalece a força da vontade.

 

Devemos respeitar a criança que se recusa a experimentar novos alimentos?

Muitas vezes a criança tem receios e não quer experimentar o novo, mas para estar na vida ela necessita de coragem. Podemos ajudá-la, incentivando a ver, cheirar e tocar o novo alimento, para depois morde-lo e mastigá-lo. Ela irá sentir uma força interior, por ter ultrapassado o medo. Nos três primeiros anos de vida a criança vai amadurecendo o metabolismo. A alimentação natural, integral e orgânica oferece a essência dos nutrientes. Isso constrói um organismo sadio, uma digestão equilibrada não só a nível físico, mas também ao nível do social, das relações e emoções.

 

Por que envolver os alunos no preparo dos alimentos?

Ao participar do preparo do lanche na educação infantil, principalmente do pão integral, a criança vivencia todo o processo digestivo. Ao moer os grãos, vivenciam como ocorre na mastigação, depois misturamos os ingredientes e amassamos (o pão). Então temos os aromas que nos envolvem e ativam a digestão. Desenvolvemos os sentidos básicos, como o tato, paladar, visão e audição, na atividade de assar, cortar e comer. As crianças participam com todo o seu corpo e com muita alegria.

 

Qual o objetivo da escola ao trabalhar com as crianças na horta?

O que vem da natureza, os alimentos mais simples, como as frutas, legumes e saladas, de preferência orgânicos, fazem com que as crianças possam experimentá-los da forma natural e isso irá construir o seu sistema digestivo de forma saudável, que ainda está amadurecendo na infância.

Os alimentos com açúcar, carboidratos são de difícil digestão. Isso não é bom para a criança que está nesse momento amadurecendo todos os órgãos digestivos. A boa alimentação nessa fase é a base da saúde no futuro. A má alimentação nessa fase definirá as doenças do futuro.

O social, a base da vida harmônica, começa no experimentar tudo que a vida nos dá. Na horta, as crianças vivem a alegria do alimento, fruto do nosso trabalho.

 

O BRINCAR INFANTIL

O direito de ser criança por inteiro!

 

O que é mesmo o brincar infantil? 

O brincar é um impulso da criança, pura expressão, que corre como um rio e nós adultos somos as margens que servem de sustento para essa corredeira. O brincar é como uma força da natureza, como as águas do rio, para as quais não podemos ensinar nada, pois elas correm por si.

 

As crianças têm sido respeitadas em sua necessidade de brincar?

Damo-nos conta que as crianças em muitos lugares não têm mais o direito de brincar pelo simples prazer da brincadeira. Parece que tudo o que está relacionado com o brincar precisa render conhecimento imediato. Os adultos idealizam que os brinquedos têm que ser pedagógicos.

 

A infância, nesse sentido, é levada a sério?

Sentimos que nossa sociedade vem perdendo o bom senso do que é ser criança, da necessidade que ela tem e dos processos infantis necessários para o seu desenvolvimento. No mundo infantil não deveria caber a palavra “pressa”. Leva-se tempo para crescer, para construir um corpo saudável que sirva de base física para todo um desenvolvimento posterior.

Para isso temos a infância, que deveria ser permeada pelo brincar, desenhar livremente, pela interação com a natureza – terra – água-areia, pelo correr- balançar – pular corda, pelas atividades caseiras para a criança imitar, por um ritmo saudável, bom sono, boa alimentação e espaços amplos.

O que vemos hoje são muitos pais e mães brincando com seus filhos no sentido de direcionar o seu brincar, sem deixar que surja espontaneamente, isso porque os seus filhos já não sabem mais como brincar.

 

Por que as crianças vêm perdendo a capacidade natural de brincar?

Esta é uma capacidade que está se perdendo, pois o meio social deixa a criança muitas vezes isolada de outras crianças (inclusive as próprias instituições escolares), ou sem ter os adultos fazendo algo que possa ser imitado por ela, como por exemplo, um adulto fazendo um trabalho caseiro, limpando um carro, lavando uma roupa, cozinhando, arrumando algo na casa, serviço de marcenaria, cuidando de um jardim, afazeres úteis e com significado para a criança.

O que se vê são famílias e escolas ocupando o tempo da criança com compromissos que prometem antecipar a aprendizagem dos conhecimentos formais (aritmética, alfabetização…), como se isso fosse realmente possível ou positivo, ademais as crianças estão muito mais expostas às brincadeiras agressivas, violentas, cenas de tiros, chutes e gritos, que brotam das telas da televisão ou jogos eletrônicos.

 

Por que o brincar é tão importante?

Somente no brincar a individualidade da criança é revelada, é brincando que ela “ensaia” de modo lúdico – brinca, atua, cria, se relaciona, constrói, experimenta, refaz – tudo o que depois será requisitado quando adulto. Isto é, se mostrar firmemente situado na vida e tomando decisões responsáveis. Por isto o brincar na infância fundamenta como nos direcionaremos ativamente e mentalmente em relação à vida, quando adultos.

 

Partindo deste panorama, como podemos resgatar esta atividade tão vital para a criança? Como podemos ser facilitadores do brincar? 

Quando pais e educadores acessam suas próprias forças imaginativas e lúdicas passam a entender e contribuir efetivamente na construção das brincadeiras. Uma das boas possibilidades é contando contos, histórias infantis sem pedir que a criança elabore um julgamento ou comente a história.

A criança que ouve um conto, simplesmente entra nas imagens, sem indicações ou interferências do adulto. Os pais deveriam contar contos pelo prazer de contar e viver os contos junto com as crianças. Deste modo se possibilita momentos de criação mágicos em que “o tempo para” e as crianças se sentem encorajadas a brincar a partir da profundeza de suas almas, das lindas imagens dos contos.

Em algumas ocasiões os adultos poderão testemunhar que a criança está ativa no brincar como se estivesse num diferente estado de consciência. Podemos pensar: “O que a criança esta fazendo?”. É bom observar a criança brincando, ouvir e entender que o brincar é importante e tem em si a possibilidade de cura, de alimentar e fundamentar a saúde para toda uma vida.

 

 

O que caracteriza o “brincar autêntico”? 

  • Liberdade de metas a serem alcançadas.
  • Sentimento de “o tempo está parado”.
  • Devoção e concentração.
  • Atenção e identificação com a ação realizada.
  • Fluidez, movimento e transformação.
  • Profunda satisfação ao terminar um brincar.

Os diferentes tipos de brincar são observáveis na criança pequena e podem ser vistos como cada um tem uma afinidade conforme as qualidades desenvolvidas por cada criança. Há brincadeiras que se relacionam mais com as imagens internas que ela traz, há brincadeiras que expressam o interesse da criança em criar algo novo, ou também imitar algo vivenciado por ela, trazendo imagens externas.

Podemos afirmar que a presença de todos os elementos no brincar indica equilíbrio no desenvolvimento da criança.

O brincar saudável engloba vários aspectos. A criança esta atenta e focada, é capaz de perseverar com relação ao que lhe interessa, é curiosa, explora e traz novos temas para o brincar. É vivaz, energética, é capaz de tolerar frustrações leves, respira normalmente, às vezes profundamente, fala de modo relaxado, mostra sinais de satisfação no brincar. Move-se num fluxo continuo de ações, brinca geralmente incluindo os outros, zela pelos seus amigos.

 

O que fazer quando a criança se recusa a brincar?

Não podemos fazer uma criança brincar quando ela não quer, pois o brincar é um ato relacionado à vontade e cada um é dono de sua vontade e faz com ela o que quer. Podemos ajudar neste processo não sendo tão sérios com relação à vida, devemos ter mais leveza no nosso ser, nas relações e ações. Buscar maneiras diferentes para cumprir a nossa rotina, outros modos que nos empolguem novamente serve como exemplo para que a criança possa nos imitar e levar para o seu brincar. Praticar as artes conjuntamente é indicado, pois estimula a criatividade.

Sugerimos também que se observe: Como está o ambiente da criança onde ela brinca? Tem espaço para ela? Ela é incluída nos afazeres diários de uma casa? Ela vê o adulto ao seu redor trabalhando em tarefas úteis e com sentido? Que tipo de brinquedos ela tem contato? Há brinquedos de várias texturas, ou seu mundo esta envolto em plástico? Seus bonecos e bonecas são aprazíveis para serem segurados e lidados com carinho ou foram inventados por alguém para aumentar a conta bancária de algum produtor de filmes ou apresentador de TV? Seu filho vê muitas horas de TV por dia? Quem o acompanha nesta hora? Você tem certeza do que ele vê é adequado? A criança escuta historias contadas por um adulto? Existe um ambiente de veneração ao redor da criança? O adulto ao redor consegue poupar a criança de conversas de adultos, de idas frequentes a shoppings ou supermercados? Você caminha com seu filho, na rua ou na natureza? Ela tem espaço para realizar movimentos amplos? Ela tem desafios ou é poupado do perigo o tempo todo? Desafios de conseguir pular corda, andar de perna de pau, subir numa árvore?

 

Qual a importância dos brinquedos para o “brincar autêntico”?

A criança precisa de muito pouco para brincar. Engana-se o adulto que compra com freqüência um novo brinquedo ao seu filho achando que assim está facilitando o brincar.

Não queremos de modo algum isolar a criança do mundo, mas sim dar a ela o que lhe cabe. Poder digerir aquilo que é da fase em que se encontra, lembrando que cada momento de nossa vida exige uma maturidade.

É aconselhável ter em casa vários panos de diversos tamanhos, bonecos simples, troncos, cestos, conchas, pinhas, cavaletes, cadeiras que a partir delas cabanas possam ser construídas, potes, colheres de pau, cordas, areia, água, carriolas. Material simples e o resto fica por conta da criança.

 

SOBRE A ALFABETIZAÇÃO

Há mais na leitura que os olhos podem ver

 

“Se eu fosse ensinar a uma criança a arte da jardinagem, não começaria com as lições das pás, enxadas e tesouras de podar. Levaria a passear por parques e jardins, mostraria flores e árvores, falaria sobre suas maravilhosas simetrias e perfumes; levaria a livraria para que ela visse, nos livros de arte, jardins de outras partes do mundo. Aí, seduzida pela beleza dos jardins, ela me pediria para ensinar-lhe as lições das pás, enxadas e tesouras de podar.  Se fosse ensinar a uma criança a beleza da música não começaria com partituras, notas e pautas. Ouviríamos juntos  as melodias mais gostosas e lhe contaria sobre os instrumentos que fazem a música. Ai, encantada com a beleza da música, ela mesma me pediria que lhe ensinasse o mistério daquelas bolinhas pretas escritas sobre cinco linhas. Porque as bolinhas pretas e as cinco linhas são apenas ferramentas para a produção da  beleza musical. A experiência da beleza tem de vir antes. Se fosse ensinar a uma criança a arte da leitura não começaria com as letras e as sílabas. Simplesmente leria as histórias mais fascinantes que a faria entrar no mundo encantado da fantasia. Aí então, com inveja dos meus poderes mágicos, ela quereria que eu lhe ensinasse o segredo que transforma letras e sílabas em histórias. É assim. É muito simples”

Ruben Alves

 

É possível alfabetizar as crianças antes dos 6 anos?

As pessoas geralmente concebem a leitura como a habilidade de reconhecer a configuração de letras dispostas numa página e em pronunciar as palavras e frases nelas representadas.  Esta concepção associada à atividade da leitura atém-se ao lado mecânico e mais exterior, portanto mais fácil de perceber. Nessa instância, quando se fala sobre ensinar à criança ler e escrever, nos limitamos à decodificação de símbolos que representam sons e palavras.

Entendendo a alfabetização desta forma, a resposta é positiva: sim, é possível ensinar a decodificação até com 4 anos!

 

É bom para a criança ser alfabetizada precocemente? É salutar que, aos 4, 5 anos, o aluno abandone as atividades próprias da primeira infância para dedicar tempo a essa aprendizagem? Consegue a criança pequena atribuir a esse ato um significado, uma importância real? A criança assim alfabetizada passa a fazer uso dessa habilidade em seu cotidiano? Ter seu primeiro contato com as escrituras, destituído de uma função pessoal e social, favorece o envolvimento futuro do aluno com o universo letrado?  

Na educação infantil convencional as crianças com menos de cinco anos são instruídas a memorizar o alfabeto – um conjunto de símbolos abstratos – e a aprender os sons associados a eles.  Tal processo é estéril e abstrato, alheio à natureza da criança pequena.

Depois, nas primeiras séries da escola do ensino fundamental I, as crianças continuam a exercitar o aspecto mecânico mais exterior da leitura.  Alunos consomem longos períodos de tempo lendo textos simplórios em sentido e significado, que correspondem somente ao patamar de suas capacidades de decodificação.  Nesse processo há muito pouco que possa inflamar as jovens fantasias, que provoque admiração ou que estimule a simpatia pela beleza e complexidade da linguagem.

Quando esses alunos alcançam às séries seguintes, todos eles são capazes de decodificar as palavras escritas, com diversos e variados graus de fluência.  Alguns até se tornam bons leitores, porém, para muitos alunos, as palavras e sentenças não se completam para formar um conjunto coerente.  Eles apresentam dificuldade para compreender ou recordar o que acabam de ler.  Superficialmente, esses alunos parecem estar lendo.  Entretanto, com tal limitada compreensão, pode isso realmente ser chamado de “leitura”?

 

O que é, então, alfabetização?

Claramente, a leitura é muito mais do que isso que nos acostumamos a ver! Além do processo superficial de decodificar palavras em uma página, há ainda a correspondente atividade interior a ser cultivada para que uma verdadeira leitura possa ocorrer.  É preciso vivenciar todo o processo com significado, contexto, num exercício constante de comunicação entre o interior infantil e o mundo ao seu redor.  Quando uma criança está vivenciando uma história, ela forma cenas da sua imaginação, em resposta às palavras.  Através da habilidade de formar imagens mentais, de compreender, de se comunicar através dessa nova linguagem, a criança encontra sentido na atividade de leitura.  Sem esta habilidade, a criança pode muito bem decodificar as palavras em uma folha de papel, mas continuará sendo funcionalmente iletrada. 

 

Quando a criança é alfabetizada precocemente, as etapas seguintes da escolarização são realizadas com maior competência?  

O que chamamos de atividade interior da leitura, é chamado comumente de compreensão na leitura.  Após um processo de alfabetização precoce, “mecânico” e sem sentido, um esforço tremendo é despendido nas séries mais avançadas do ensino fundamental, na tentativa de expandir nos alunos o vocabulário e, de alguma forma, exercitar a compreensão. É uma tarefa árdua, principalmente como conseqüência do ensino prévio da leitura, fora de sincronismo com as capacidades naturais da criança.

O professor das séries mais avançado tem que lidar com os problemas de compreensão da leitura e também com a tremenda antipatia em relação à leitura que assola os jovens com dificuldades.

É muito difícil dar aulas a alunos de quinto ou sexto anos que tenham dificuldades com compreensão da leitura, com a construção de imagens mentais.  Esta capacidade interior parece nunca ter se desenvolvido neles.

 

Quais as habilidades devem ser estimuladas na educação infantil, senão as habilidades de decodificação (alfabetização)? 

As crianças da educação infantil e das primeiras séries, se deixadas desimpedidas e adequadamente estimuladas, permanecem naturalmente ocupadas desenvolvendo, interiormente, cenas imaginativas.  Estas crianças adoram ouvir histórias e, verdadeiramente, vivem no reino visual da imaginação.  É muito trágico, em muitas escolas, ver as crianças mais novas sendo desviadas do desenvolvimento e fortalecimento de suas capacidades interiores, tão essenciais à verdadeira leitura, em direção à aprendizagem de símbolos estéreis e abstratos e a habilidades de decodificação.

A mesma afirmação pode ser feita para o enriquecimento do vocabulário.  Todos sabemos que a jovem criança facilmente desenvolve seu senso lingüístico e que seu vocabulário se expande rápida e inconscientemente.  Elas escutam novas palavras em histórias e conversas e, de alguma forma, captam o significado delas.  Elas podem até não conseguir dar definições “de dicionário” a essas novas palavras mas, misteriosamente, novas palavras se encaixam nas imagens que fluem através da mente da criança quando ela escuta histórias.

É angustiante saber que nas primeiras séries escolares a maioria das crianças não é exposta à rica e complexa linguagem, simplesmente porque esta não seria compatível com as capacidades limitadas de decodificação da criança.  Justamente no período que suas mentes estão mais abertas a aquisição da linguagem, elas permanecem na escola, então, convivendo com vocabulários artificialmente limitados!

Certamente, a construção do vocabulário é um processo gradual durante os anos escolares e além deles.  Entretanto, é muito mais fácil para as crianças maiores aprender novas palavras se elas já tiverem passado pelo processo de desenvolvimento do senso lingüístico, de um extenso conjunto de palavras e de imagens mentais sobre as quais será construído o novo vocabulário.

 

O Ministério da Educação recentemente mudou a idade mínima exigida para o ingresso na primeira série do Ensino Fundamental. Como a Escola Vivenda avalia esta mudança?

Desde que foi implantado o Ensino Fundamental de nove anos, todos os alunos que completassem sete anos no ano vigente era automaticamente matriculado no 2º ano (antiga 1ª série), mesmo que completasse idade dia 31 de dezembro.

A partir de 2012, somente poderá cursar o 1º ano do Ensino Fundamental, aqueles alunos que completam 6 anos até 30 de junho, consequentemente, somente as crianças com 7 anos até março cursarão o 2º ano.

Para nós, uma decisão acertada de proteção à infância e garantia de melhores resultados no futuro.

Aparentemente, o crescente problema de analfabetismo funcional observado em nosso país não é causado pela falta de capacidades técnicas de decodificação.  Para a maioria das crianças com dificuldade de leitura, há, sim, uma crise na compreensão, uma crise amplamente causada pela introdução precoce de capacidades de decodificação e pelo desconhecimento das poderosas ferramentas oferecidas pela imaginação e pela atividade artística que são veredas naturais de aprendizagem para crianças nos primeiros períodos escolares.  Ironicamente, esforços mais contundentes e ainda mais precoces no desenvolvimento de habilidades de decodificação eram anteriormente oferecidos pelos organismos educacionais, o que apenas agravava mais ainda o problema.

 

Quando as crianças iniciam sua alfabetização na Escola Vivenda?

O método convencional de ensino da leitura deve ser virado ao avesso com o intuito de aproveitar as vantagens do desenvolvimento natural das capacidades de aprendizado das crianças.  É precisamente isso o que ocorre na Escola Vivenda.  Nos primeiros dias da educação infantil, crianças começam a aprender a ler.  Verdade seja dita, não são os aspectos técnicos, secos e externos da leitura que elas são incentivadas a realizar.  Ao invés disso, elas são mantidas em contato com os aspectos interiores muito mais importantes da leitura.

Ao trabalhar com real conhecimento sobre a criança em desenvolvimento, nossos professores começam o ensino da leitura através do cultivo, na criança, do sentido da linguagem e de suas capacidades em formar imagens mentais.  Imagens verbais vívidas e o uso de uma linguagem rica são constantemente empregados na sala de aula.  Vocabulários difíceis e sentenças com estruturas complexas não são evitadas durante as atividades de contos de fadas e fábulas.  As crianças cantam e recitam um vasto repertório de canções e poemas que muitos acabam decorando.  As crianças vivenciam um mundo interior de imagens e fantasias, totalmente inconscientes de que elas estão desenvolvendo as mais importantes capacidades necessárias para a leitura compreensiva, para ler e entender.  Elas aprendem natural e alegremente.

 

Quanto tempo leva o processo de alfabetização?

Histórias imaginárias, canções e poesia não se findam na educação infantil.  Rudolf Steiner nos indica que crianças entre as idades de 7 a 14 anos têm, acima de tudo, o dom da fantasia.  Assim, somente há sentido no fato das crianças aprenderem melhor se o currículo é apresentado de maneira a cativar a imaginação.  Em seu livro “Kingdom of Childhood”, Steiner diz “Devemos evitar uma aproximação direta às letras convencionais do alfabeto que são utilizadas na escrita e na imprensa do homem civilizado.  Antes, devemos guiar a criança de uma forma vívida e imaginativa através dos vários estágios que o próprio Ser Humano percorreu na história da humanidade”.

 

O ensino específico das letras é inevitavelmente mecânico?

Nossas crianças experimentam a alegria de aprender as letras do alfabeto através de contos e através da aquarela e do desenho que acompanham cada letra.  A letra “R” (Rei), por exemplo, pode ser introduzida através do conto de uma bela história sobre um rei.  Então, o professor pode desenhar a figura de um rei em uma posição que lembre a letra “R”.  Este processo tem sua base no passado da humanidade, à escrita pictórica usada pelo homem antigo, e empresta qualidades vivas e reais a nossos modernos símbolos – qualidades que a criança consegue compreender.  Assim, constroem seu mundo imagético, vivenciando o desabrochar da fantasia e da imaginação.

Na realidade, aprendem a “compreensão da leitura” muito antes de aprender a “decodificação de símbolos”.  Surpreendentemente, nossos alunos apreendem primeiramente à parte difícil sem se darem conta disso!  Eles vivem as histórias, criam imagens interiores,  compreendem as palavras e desenvolvem narrativa interna.  Então vem a parte fácil: aprender a decodificar letras, que não são mais estranhas e abstratas, e ler as palavras escritas.

 

A Vivenda consegue formar bons leitores?

Quando alunos da Vivenda aprendem a ler, não é uma cartilha, mas belos contos. Para pais que esperam filhos alfabetizados aos cinco anos, nossos alunos aprendem tardiamente.  Mas aprendem a ler fluentemente, com compreensão e prazer, muito mais cedo que a maioria das crianças.  Há muita sabedoria em nossa didática em relação à leitura.

Utilizando um verdadeiro conhecimento do ser humano, uma real compreensão dos estágios de desenvolvimento infantil, o professor é capaz de educar com métodos que permitem o desabrochar prazeroso das crianças.  Como Rudolf Steiner diz, “É inteiramente real o fato de que o verdadeiro conhecimento do ser humano pode soltar as amarras e libertar a vida interior da alma e trazer o sorriso a nossas faces”.

 

 

SOBRE A INFORMÁTICA NA ESCOLA

 

A Vivenda tem equipamentos multimídia nas classes do Ensino Fundamental II. Como a Escola pensa a questão da informática na sala de aula?

Entendemos que os computadores estão para a escola como os livros e cadernos: mais uma fonte de informação e um suporte para registro e organização dos conhecimentos em estudo.

Para o professor, uma grande ferramenta didática que pode trazer mais dinamismo para suas aulas e facilitar a visualização de muitas teorias em estudo.

A experiências que já tivemos com os chamados “laboratórios de informática” e as diversas análises feitas por renomados teóricos da educação confirmam a nossa opção por não ministrarmos “aulas” de informática e nem montarmos um laboratório específico.

 

Por que recomendamos limitar o tempo de televisão, vídeos e computadores para as crianças e jovens? 

Um objetivo central do Ensino é estimular o desenvolvimento saudável da imaginação e criatividade em seus alunos. A preocupação dos professores é a de que a mídia eletrônica impeça o desenvolvimento da imaginação da criança. Eles estão preocupados com os efeitos físicos da mídia na criança em desenvolvimento e com o conteúdo de grande parte da programação.

Há cada vez mais pesquisas para fundamentar estas preocupações. Temos “Mentes em Perigo: Por que Nossas Crianças Não Pensam” e “ Fracasso em Conectar: Como os Computadores Afetam a Mente de Nossas Crianças – Para o Melhor e o Pior”de Jane Healy; “Quatro Argumentos para Eliminação da Televisão” de Jerry Mander; “TV, A Droga Ligada à Corrente” de Marie Winn; e “O Fim da Evolução: Reivindicando a Nossa Inteligência em Todo o Seu Potencial” de Joseph Chilton Pearce; “Computadores e TV” de Valdemar Setzer.

 

 

SOBRE O TEATRO

 

Por que o teatro do nono ano? 

No 9º ano da Escola Vivenda os alunos devem apresentar uma peça teatral que é considerada um componente curricular, assim como matemática, física, geografia ou qualquer outra disciplina.

 

Ao aluno cabe a tarefa de transformar qualidades linguísticas (articulação da fala, pausa, contraste entre a tensão e distensão, a exclamação, a pergunta retórica, etc), como elementos dramáticos, em um trabalho de coroamento do ensino da língua portuguesa e a individualidade de cada aluno, com sua força criativa e seu mergulho na personagem, deve contribuir para a apresentação geral.

 

O último ano da nossa escola representa a finalização de um período de 9 anos de um processo educacional, e nesta oportunidade, cumprindo com esta missão, contamos com todos os alunos, além do diretor de teatro – professora Raquel e a tutora da classe.

 

O processo mais longo e difícil é o da escolha do texto da peça, quando cada aluno lê no mínimo uma obra e apresenta para o grupo sua análise. Nesse momento há um amadurecimento do grupo e um trabalho de desapego. Primeiramente pelo desafio de mergulharmos mais fundo em uma busca de nossa identidade humana; algo além das “instituições” sociais ou  das falsas verdades tão apregoadas nos dias de hoje. Em segundo lugar porque é necessário tomarmos contato com dúvidas e dores em nossa existência, não para sucumbirmos a elas, mas com o intuito de superá-las para que, coletivamente, passemos por esses momentos delicados do final de um ciclo que representa o início de uma nova vida, entrada no terceiro setênio.

 

A peça escolhida nem sempre é do agrado de todos. As questões que surgem vão sendo trabalhadas durante os ensaios e nas assembléias, normalmente são matéria-prima para trabalhar os limites e os talentos individuais gerando de fato uma auto-superação.

 

O que se segue, a partir daí, tende a ser um verdadeiro ato coletivo de criação. Pode surgir composição de trilha sonora, coral de apoio, construção do cenário, do figurino. O espírito de companheirismo e de disponibilidade deve se fazer presente em nossa comunidade.

 

No envolvimento com o trabalho coletivo os alunos podem vivenciar um trabalho coeso, intenso e reconhecido publicamente quando na noite de apresentação recebem os aplausos e colegas de outras turmas.

 

O que queremos além do que já foi dito é dar  aos nossos formandos a oportunidade de olhar o mundo com outros olhos, assim encaramos o teatro. Uma experiência única, em que vínculos entre amigos e personagens se entrelaçam para originar o que chamamos de peça teatral. Aprendizado. Essa é a palavra que escolho para caracterizar a arte de criar um novo mundo onde a imaginação se mistura com a realidade. O teatro só reforça os vínculos existentes entre os alunos e os professores.”